Confesso que , apesar de toda a minha vivência no meio espírita, nele integrado desde os 22 anos, fiquei chocado ao ler, na introdução deste livro, esta expressão do autor: “essa indagação que, como pedra de escândalo, vinha agitar uma questão até então adormecida devido à indiferença dos espiritistas pela causa da verdade”.
Desde jovem aceitei o Espiritismo como sendo a própria causa da verdade. Como, pois, admitir que os espiritistas sejam indiferentes á causa da verdade ? Mas, continuei a ler a ponderada, tranqüila introdução de Luciano Costa, e verifiquei a sua absoluta razão nesse ponto, como em todos os demais por ele abordados nessa obra. Luciano Costa nos revela nestas páginas uma inteligência lúcida, com extraordinária capacidade de análise, e um amor tão sincero pela Doutrina, que nos compensa de todas as tropelias e toda a insensatez com que nos defrontamos no meio doutrinário.
Claro que essas tropelias e essa insensatez decorrem do nosso estágio evolutivo na Terra. Mas, a indiferença pela causa da verdade corresponde, em grande parte, ao comodismo da maioria. Muitos companheiros do Espiritismo não querem nem ouvir falar na questão roustainguista. Dizem tratar-se de uma questão bizantina, tola, sem importância. Dizem, mas na verdade jamais a encararam de frente. É questão de ponto de vista, afirmam na sua maioria. E não se trata disso, mas de uma verdadeira contradição, de uma tentativa de deturpação profunda da Doutrina, introduzida no meio espírita brasileiro pela brecha de um equívoco e alimentada constantemente pela paixão de uns e a indiferença de outros.
Para a maioria dos espiritistas falar em roustainguismo é falar no corpo fluídico de Jesus. Luciano Costa assinala muito bem que não se trata disso. Que Jesus tinha um corpo fluídico é ponto pacífico, pois nós todos o temos. Mas, o roustainguismo nega o corpo carnal de Jesus, transforma o Mestre num agênere e faz de Maria a sua falsa mãe, integrando-a na galeria patológica das histéricas que sofrem de falsa gravidez. Além disso desfigura a Doutrina Espírita, contradizendo seus princípios fundamentais.
Por exemplo: a escala dos mundos de Kardec é substituída por uma dupla escala, uma de mundos materiais, como o nosso, outra fluídica e destinadas a espíritos privilegiados; a reencarnação espírita é desfigurada por uma concepção que nega a lógica doutrinária e acaba admitindo a metempsicose, a volta de espíritos altamente evoluídos ao reino vegetal e animal, como castigo; os mais nobres episódios da vida de Jesus se transformam em cenas ridículas em que ele e sua mãe figuram como farsantes; e as contradições do próprio texto de Roustaing são tão flagrantes que ele mesmo afirma, logo no primeiro volume da obra, que Jesus não nasceu derrogando as leis naturais de Deus, pois “A vontade imutável de Deus jamais derroga as leis da natureza, que ele próprio formulou desde toda a eternidade”, e logo mais afirma que Jesus não se encarnou “segundo as leis da reprodução material do vosso planeta”.
São essas coisas que precisam ser mostradas, ser esclarecidas, a fim de que o meio espírita acorde, desperte do seu comodismo, do sono letal da sua indiferença. Alega-se sempre o princípio da caridade e o de tolerância para justificar o silêncio em torno do assunto. Mas, se é caridade aceitar o erro por que motivo opormos o Espiritismo aos enganos das religiões ? Não seria mais caridoso nos acomodarmos no seio ilusório de uma delas ? E se a tolerância é a cumplicidade comodista com o erro, porque darmos ouvidos ao Espírito da Verdade ? E porque teria vindo o Senhor à Terra, sendo tão enérgico na condenação dos erros dos fariseus ?
É uma tristeza, como acentua Luciano Costa neste livro, que pessoas colocadas em posição de liderança no meio doutrinário endossem e publiquem a obra de Roustaing. A finalidade dessa obra – bem visível na sua linguagem e nas suas teses absurdas – é a ridicularização do Espiritismo. Carlos Imbassahy, que agora , depois da morte, querem transformar em roustainguista, contou-nos o seu desaponto quando, certa vez, na sua fase de iniciação espírita, confrades mais velhos e experientes lhe deram a obra de Roustaing para que ele pudesse refutar acusações de um sacerdote católico à doutrina. Imbassahy, que tinha Roustaing em boa conta, diante da propaganda que dele faziam pessoas de sua estima, ficou sem saber explicar a razão por que essas pessoas aceitavam aquele texto confuso e retrógrado.
O mesmo me aconteceu, aos 24 anos, quando levado pela propaganda roustainguista mencionei essa obra a um pastor protestante como “a única interpretação total dos Evangelhos, versículo por versículo, publicada no mundo. Era um dos slogans da propaganda cerrada da FEB, que vinha seguida de opiniões respeitáveis, como as de Bittencourt Sampaio, Bezerra de Menezes e outras figuras exponenciais. Como podia eu, naquela idade, pensar que esses veteranos dignos e sérios se tivessem enganado a respeito? Chamado à atenção por um confrade mais experiente resolvi ler a obra famosa e fiquei estarrecido diante dos seus absurdos e contradições.
O episódio roustainguista no Brasil tem uma razão de ser, que estudei e expus em trabalho mais denso, prestes a ser publicado. Bittencourt, Bezerra, Saião e outros eram homens de formação católica e de boa fé. Bezerra, como sabemos, era mais coração do que cérebro, embora dotado de uma vigorosa inteligência. Notamos em seus últimos escritos, particularmente nas crônicas, que ele havia mais tarde acordado para a compreensão do caso roustaing, mas rebelar-se seria de um escândalo e magoar muitos companheiros sinceros que a hipnose roustainguista dominara. Conteve-se e amargou em silêncio o seu engano. Por isso vem agora através de Chico Xavier recomendar-nos com ênfase e constantemente: “Kardec, Kardec e mais Kardec!”
Muitos se deixam levar pela falsa notícia de que médiuns exponenciais, tendo à frente Chico Xavier, são roustainguistas. Mas, quem já viu uma mensagem de Roustaing através de Chico, uma obra dele a favor de Roustaing, uma só afirmação textual de Chico nesse sentido? O caso do “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho não passaria de opinião pessoal do autor espiritual, que é Humberto de Campos. Mas, esse caso foi denunciado por pessoas de significação em nosso meio como sendo uma interpolação, uma modificação de textos. Quem fez a denúncia em primeiro lugar foi o General Araripe de Faria, pelo jornal “Mundo Espírita”, então editado no Rio. Depois o jornalista Henrique de Andrade, pelo jornal “Aurora”, também do Rio. E mais tarde o engenheiro, editor e escritor espírita Júlio Abreu Filho em seu livro “Erros Doutrinários”, réplica ao livro “Elos Doutrinários” de Ismael Gomes Braga. Não houve um desmentido sequer.
O filósofo espírita Humberto Mariotti, da Argentina, escreveu-me recentemente alarmado com a reedição de “Os Quatro Evangelhos” no Brasil. Perguntava-me porque Emmanuel e Chico Xavier não se manifestam a respeito, acabando de vez com esse episódio que empana o brilho do Espiritismo no Brasil. Muitos companheiros de doutrina fazem a mesma pergunta. É preciso compreendermos que o problema é nosso e não dos Espíritos. O Roustainguismo é uma paixão, como todo processo de mistificação. Emmanuel não iria lançar a sensibilidade medíunica de Chico Xavier na fogueira de irritações que o caso Roustaing mantém acesa entre nós. Mas, basta uma apreciação da obra gigantesca da psicografia de Chico para se compreender que Roustaing não foi e não é admitido ao lado de Kardec no campo doutrinário por Emmanuel ou Chico. Só os que não têm olhos de ver, ou os que têm os olhos embaçados pela fumaça roustainguista não percebeu isso.
Além do mais é preciso compreender que o caso Roustaing se tornou entre nós uma questão de interesse pessoal. No Espiritismo, como em todos os movimentos doutrinários de qualquer natureza, há criaturas que desejam destacar-se, projetar-se, conquistar renome e conceito. Os órgãos de divulgação roustainguista dispõe de maiores recursos e o comodismo generalizado facilita a ação desses órgãos. A falta de conhecimento real do Espiritismo é um dos males fundamentais do nosso movimento. Conferencistas e escritores espíritas importam-se em geral muito pouco com a coerência doutrinária e até com o estudo sistemático da Doutrina. Chegam mesmo ao cúmulo de endossar a teoria antikardeciana de que não deve haver cursos de Espiritismo, não se deve falar em cultura espírita e assim por diante. Dessa maneira o comodismo e o obscurantismo dão-se as mãos para que a mistificação se mantenha.
Por tudo isso o livro sensato, analítico, amoroso e caridoso Luciano Costa reaparece em boa hora. Chega de falar em Roustaing por palpite, por ouvir dizer. Estamos na hora da verdade e a causa da verdade não pode ser negligenciada pelos que aceitam a Revelação do Espírito da Verdade. O momento de transição que atravessamos exige de todos os espíritas muito estudo e muita vigilância. O desespero das Trevas enche o mundo de mistificações. Mas, se compreendermos que a obra de Kardec é a pedra de toque da verdade espiritual, a única revelação anunciada pelo próprio Cristo e que nos chegou na hora histórica exata, estaremos livres das perturbações e dos desvios que nos ameaçam. Tenhamos pena de Roustaing e não o torturemos mais com a fogueira do Roustainguismo na Terra. Ajudemo-lo a encontrar a paz acomodando-nos à verdade que nos foi revelada e Luciano Costa nos oferece, para isso, a contribuição do espírita estudioso neste livro de amor.