As ruas ainda dormiam quando o vento começou a soprar. Vinha do Sul e esgueirava-se nas frinchas do casarão de madeira de Antônio Salomão, assobiava nos beirais do seu telhado de zinco, jogava areia fina nas paredes de tábuas e dedilhava no zinco. Otaviano Pires saiu à porta de sua casa, na rua J.J. Esteves, encarou o céu cinzento e levou uma bofetada de areia, sem tempo de fechar os olhos. “Diacho – exclamou – os sulistas não perdem tempo!” De polainas de couro marrom, engraxadas na véspera, coletes amarelo-escuro, dois revólveres calibre 38 na cintura (um para a mão esquerda e outro para a direita) atravessou a rua a passos largos e dirigiu-se para a estação da Estrada de Ferro Sorocabana. Sua corpulência de homenzarrão, com chapelão de abas largas, permitia-lhe enfrentar até mesmo uma tempestade de areia. Atravessou o saguão e dirigiu-se ao gabinete da chefia. Estava fechado. Foi à sala do telégrafo, onde os aparelhos tilintavam sem cessar. Só encontrou o telegrafista Américo de Carvalho, um homenzinho de pouco mais de um metro, sempre calmo e bem vestido, de unhas compridas e esmaltadas, cabeça grande e o bigodinho castanho como um fio sob o nariz.
— Esses aparelhos não param? – perguntou Otaviano – Onde está o Roldão? O Chefe da Estação devia estar aqui. Vai chegar agora o trem do General.
Américo sorriu:
— Não tem ninguém, estou sozinho. Sumiram todos. Mas, antes do trem do General, vai chegar um comboio da tropa. Quer esperar?
— Não, não vou esperar – disse o gigante – mas se o General chegar mande me avisar. É ali mesmo, do outro lado da rua.
— Sei – disse o pigmeu – mas não tenho ninguém para mandar avisá-lo e não posso abandonar o telégrafo.
— Ora essa! Se todo mundo fugiu, porque você não pode? É tempo de guerra.
— Sei – respondeu Américo, impassível. – É meu dever ficar no telégrafo. Olhe, estão me chamando. – Correu para o aparelho, respondeu à chamada, pegou um papel e começou a escrever a lápis a mensagem que chegava. Otaviano mirava intrigado aquele homenzinho sem medo. Américo terminou a recepção e disse, estendendo o papel ao gigante: É para o Senhor, Comandante. Foi bom esperar.
Otaviano pegou o telegrama e leu em voz alta. “Devo chegar ao meio dia. Quero nomeá-lo comandante militar praça. Abraços (a) Gal. João Francisco”.
Américo sorriu, medindo com um olhar irônico a estatura do Comandante e comentou: “General João Francisco, a Iena dos Pampas. Cuidado, Comandante, essas feras da fronteira gostam de pegar paulistas a laço”.
— Modere essa língua – advertiu Otaviano – o General João Francisco é um bravo e um homem de princípios. General valente e patriota de verdade, ele quer transformar essa revolução de políticos decaídos num processo de renovação nacional. Vá ouvi-lo no comício que fará ali mesmo, no largo da Igreja. E agora até logo. Fique no seu posto. Vou começar a agir, tomando a Prefeitura.
Otaviano saiu a passos largos,confiando os bigodes no rosto de um moreno cuia, de índio. Dali a pouco saía de sua casa com uma escolta de carabineiros calibre 44. O Prefeito Avelino Pereira, que padecera sob a ditadura perrespista, lutando no Partido Democrático ao lado de Lúcio Bento, o patriarca rural, foi deposto pelas armas. Só com a vitória de Getulio Vargas em 1930, Avelino conseguira guindar-se ao poder. Voltaria mais tarde, com as primeiras eleições da Nova República.
Naquele mesmo dia, antes da tomada da Prefeitura, Américo teve a ocasião de se divertir com a valentia dos gaúchos. Corria o boato de que uma coluna paulista estava em marcha para deter os gaúchos na curva da estrada de ferro, no alto da Chácara do Major Artur Esteves. Os gaúchos que já haviam tomado a estação estavam alerta. De repente, um comboio militar surgiu na curva da ferrovia. Os soldados disparavam seus fuzis e faziam grande alarido. Américo esperava impassível, quando a soldadesca invadiu a sala do telégrafo e dois deles se esconderam em baixo da mesa. Os outros se esparramaram em correrias pelos arredores, entrincheirando-se na caixa dágua, no armazém de bagagens e por trás dos vagões de carga estacionados nos trilhos. Mas, o comboio alarmante logo se caracterizou por suas flâmulas e seus lenços vermelhos. Foi essa tropa barulhenta que garantiu a chegada segura e tranqüila, pouco depois, do Comboio do General.
Os valentes que se esconderam em baixo da mesa do telégrafo explicavam a Américo: “Guerra é assim, mano. A gente precisa ser esperto, não cair fácil na mão dos inimigos”. E Américo, com seu sorriso de esguelha e o brilho irônico nos olhos castanhos, respondia: “Eu sei, manos, a hora do aperto acoxa as pacueras da gente! Nós os paulistas, também temos pacueras. Se eu não me escondo é porque já nasci escondido. Ninguém me vê na hora do pega”.
Antes do comício, que só se realizaria á noite, o General João Francisco, taco a taco com Otaviano em altura e imponência, desfilou pelas ruas de Cerqueira César, acompanhado por civis e militares. Ao passar o cortejo revolucionário pela frente da Tipografia Ipiranga, editora do jornal O PORVIR, de José Pires Corrêa, este quis saudar o General, mas foi impedido pelo primo Tenco Pires, que o advertiu: “Nada disso, primo! Esse diabo de bigodes de espeto não é uma iena, é o próprio diabo em pessoa. Sabe o que ele vai fazer no comício de hoje? Vai pregar socialismo de cima do coreto do jardim, nas barbas de Frei Antão, que nos visita para nos salvar da ilusão vermelha. Depois, não se esqueça de que esse bigodudo é um dos que acabaram com o nosso PRP o glorioso Partido Republicano Paulista. Deixe o diabo velho por conta do Otaviano”. Enquanto Nhô Tenco dava essa explicação ao primo, o cortejo escoou pela Travessa do Comércio e virou a esquina da rua J.J. Esteves. Nessa hora, Zico e Zequita Pires soltaram umas bombinhas de estouro ardido. Cinco gaúchos que vinham atrás do cortejo, vigiando a retaguarda, com seus lenços vermelhos no pescoço, invadiram a tipografia para saber o que era aquilo. Zequita explicou: “Saudamos o General, que pôs nosso primo Otaviano no comando militar da praça”. Os gaúchos agradeceram e partiram, com seus lenços vermelhos tatalando ao vento.
À noite o povo cercou o coreto para ouvir a pregação socialista do General. Ele queria uma república socialista no Brasil, mas não comunista. Lançou ali os fundamentos de uma “república de verdade”, em que não haveria mais roubos, espoliações e nem exploração do homem pelo homem. Zé de Abreu, violinista muitas vezes confundido com Zequinha de Abreu, e que mexia nas tripas de todo mundo ao tocar Abismos de Rosas, não se conteve e deu um viva a Moscou. Felizmente era gago e estava tão emocionado que ninguém entendeu. O velho professor Solano de Abreu, seu pai, tomou-o pelo braço e o levou para casa. Lá ele explicou ao pai: “O General não conseguia esclarecer a sua posição e eu quis ajudá-lo”. A única maneira de afastar o violinista do público foi contar-lhe que as irmãs dele, devotas de Santo Onofre, iam encher dali a pouco os copos de pinga do santo, que já os havia esvaziado. Zé ficou na espreita. Quando as irmãs completaram a tarefa de encher os copos de Santo Onofre, esperou que se deitassem e fez a limpeza geral. Contava depois aos amigos: “Salvei o Santo de uma bebedeira de rachar. Tomei uma esbórnia que me fez dormir até a noite do dia seguinte, para só acordar no outro dia”.
O General partiu no dia seguinte, em seu comboio militar, para São Paulo e Rio. Otaviano Pires assumiu o comando da praça e tratou de evitar desmandos e estripulias da soldadesca na cidadezinha. Agiu com prudência e energia. Tudo passou com o vento. Otaviano dizia: “Cerqueira Cezar é uma cidade diferente. Neste chão de areia não ficam rastros. O que passou, passou”. Américo lhe disse um dia: “Comandante, por baixo desse areião há muita coisa escondida. O vento apaga os rastros na areia, mas não apaga as mágoas no coração nem as lembranças na memória do povo”. “Isso é verdade – disse Otaviano – mas a memória de um homem de bem não guarda rancores. E o que vale numa terra são os homens de bem”.
Américo aprovou as palavras do Comandante militar da Praça. Não havia dúvida que Otaviano era um homem de bem. Estalou os dedos, dando sinal de partida ao cachorrinho Daly, que nunca o deixava, e saíram ambos no ritmo conjugado das calças charlston do homenzinho com o trote de quatro patas do cãozinho. Se a cena se passasse na Grécia Antiga, Américo e seu cachorrinho fariam parte dos filósofos cínicos, ou seja, de vida obscura e humilde, vida de cachorro. A elegância habitual do telegrafista era apenas uma compensação ideal do seu tamanho físico. De chapéu de feltro, cigarro nos lábios, barba feita, as calças largas drapejando nas pernas, sapatos rigorosamente lustrados, Américo não parecia um dandi, mas um homúnculo que procurava definir-se como homem. Daly, por sua vez, bem tratado, de coleira ornamental (que outra função não tinha a sua coleira) pêlos limpos e penteados, sacudia o rabinho volteado para cima, tentando aumentar o próprio tamanho. Américo exigia que se escrevesse Daly com y. Justificava a existência dizendo que Daly, se não tinha pedigree, tinha mestiçagem nobre. Não se definia ação do cãozinho, mas era evidente que ele se distinguia no mundo dos cães por características inconfundíveis. “A cinologia, dizia o filósofo, só possui duas divisões: a dos cães de quatro pernas e a dos cães bípedes. Nessas duas áreas via cães de personalidade canina e homens de personalidade humana, que eram os chamados homens de bem. Os cínicos modernos – acrescentava – não precisam viver no tonel de Diógenes. Vida de cachorro não é vida de miséria e sujeira, mas vida de dedicação e fidelidade”. Ele, Américo, era dedicado aos seus deveres e fiel à sua condição, o mesmo acontecendo a Daly.
Pensando em tudo o que se passava naquele tempo, Américo zelava por si mesmo e por Daly. Não dava nenhuma importância aos acontecimentos exteriores e não temia ameaças nem bravatas. “Se nos esmagarem – dizia sempre – não seremos as únicas criaturas esmagadas no mundo. E se nos deixarem viver, viveremos como somos e gostamos de ser, fiéis a nossa própria natureza”.
Muita gente reclamava das ruas de areia de Cerqueira César. Américo dizia que a cidade desapareceria, tornando-se igual às cidades padronizadas e incaracterísticas de todo o mundo, se um dia os cerqueirenses eliminassem o areial. Foi o que infelizmente, aconteceu. “Basta olharmos uma pessoa atravessar a rua, fora da calçada – dizia ele – para sabermos se é cerqueirense ou estranha. Porque os daqui navegam na areia como barcos na água e os de fora nadam como náufragos que não sabem como equilibrar-se”.
Ao virar a esquina, Américo e Daly quase foram esmagados pela corpulência do Comandante Militar da Praça. Este parou a tempo de evitar o desastre, sorriu e perguntou: “Diga-me uma coisa, telegrafista: O que é um homem de bem?” Américo apontou para Daly, sentadinho ao seu lado e disse: “É o que sabe como comportar-se na condição de si mesmo em todas as circunstâncias”. O comandante soltou uma gargalhada e continuou em seu caminho. |